Ao conteúdo inconsciente responsável pelas perturbações da consciência deu Jung o nome de “complexos”.
Os complexos são temas emocionais reprimidos e que são os motivadores de diversos comportamentos psicológicos. São, sobretudo, produtos de experiência - traumas, interações e padrões familiares, condicionamento cultural. São portanto o que permanece na psique depois que ela digeriu a experiência.
Os complexos são estruturas psíquicas agrupadas no inconsciente pessoal, que são estimuladas por interações com as outras pessoas. Onde começa a esfera dos complexos, a liberdade do ego (consciência) chega ao fim, pois complexos são funções psíquicas cuja natureza mais profunda ainda é incompreensível.
Com frequência ouvimos dizer por exemplo: “ele tem complexo de superioridade” ou “ela tem um complexo de inferioridade”, e assim por diante. Mas, há algo de incorreto nessas expressões.
A verdade é que não somos nós que temos o complexo, o complexo é que nos tem, que nos possui. O complexo interfere na vida consciente, leva-nos a cometer lapsos e gafes, perturba a memória, envolve-nos em situações contraditórias, arquiteta sonhos e sintomas neuróticos.
Os complexos são agrupamentos de conteúdos psíquicos carregados de afetividade. Compõem-se de intensa carga afetiva, capazes de existência autônoma, uma vez que o indivíduo não possui controle, por não estar nem mesmo consciente deste processo que se desenrola na sua psique.
Jolande Jacobi, psicóloga suíça, lembrada por seu trabalho com Carl Jung e por seus escritos sobre psicologia junguiana, escreveu: “Alguns complexos repousam tranquilamente mergulhados na profundeza do inconsciente e mal se fazem notar; outros agem como verdadeiros perturbadores da psique; outros já romperam caminho até o consciente, mas resistem a deixarem-se assimilar e permanecem mais ou menos independentes, funcionando segundo suas leis próprias”
Dos complexos dependem o mal-estar ou o bem-estar da vida do indivíduo. Eles podem ser comparados, diz Jung, a infecções ou a tumores malignos, que se desenvolvem sem qualquer intervenção da consciência. Como demônios soltos, infernizam a vida no lar e no trabalho.
Todavia é preciso acentuar que na psicologia junguiana os complexos não são, por essência, elementos patológicos. “Significa que existe algo conflitivo e inassimilado - talvez um obstáculo, mas também um estímulo para maiores esforços, e assim podem vir a ser uma abertura para novas possibilidades de realização.”
Portanto, ao lado de seu papel negativo tão proclamado, os complexos poderão desempenhar uma função positiva. Tornam-se patológicos quando sugam para si quantidades excessivas de energia psíquica.
A tarefa mais importante do complexo é servir de veículo para a transformação, pois o complexo traz o arquétipo para a experiência pessoal. O complexo é a personalização do arquétipo, por assim dizer. É como se o complexo fosse a junção do arquétipo mais a carga afetiva, ou seja a união do componente impessoal, objetivo (arquétipo) com o componente pessoal, subjetivo (a emoção ou afeto).
Assimilação dos complexos
Um passo dos mais importantes para o conhecimento de si próprio, bem como para o tratamento de neuroses, será trazer à consciência os complexos inconscientes.
Mas convém não esquecer que a tomada de consciência do complexo apenas no plano intelectual muito pouco modificará sua influência nociva. Para que se dê a assimilação de um complexo, será necessário, junto à sua compreensão em termos intelectuais, que os afetos nele condensados exteriorizam-se por meio de descargas emocionais.
Os primitivos davam expressão aos choques e traumas emocionais por meio de danças e cantos repetidos inúmeras vezes, até que se sentissem purgados desses afetos.
Todo e qualquer complexo contém um componente arquetípico (isto é, inato, primitivo). Os elementos arquetípicos da psique são vivenciados cotidianamente através da experiência dos complexos.
As atitudes do ego (consciência) para com os complexos são:
Para integrar um complexo é preciso primeiro trazê-lo à consciência, conhecer, sentir e entender. Em seguida, é preciso simbolizar os complexos, por meio das terapias, expressá-lo de forma simbólica, o que é diferente de constelar um complexo, que nesse caso significa apenas manifestá-lo quando ele nos toma de súbito.
Outro tema que está diretamente ligado aos complexos, são os sonhos. Os sonhos são formados a partir dessas imagens inconscientes, ou seja, os complexos. Jung refere-se em vários lugares aos complexos como sendo os arquitetos dos sonhos. Durante um certo período de tempo, os sonhos apresentam imagens, padrões, repetições e temas que nos fornecem um quadro descritivo dos complexos de uma pessoa.
O tema complexos é muito mais amplo e não se esgota aqui, caso você tenha interesse em conhecer mais sobre o assunto, deixo aqui os livros que serviram de base para este texto.
Referências:
STEIN, Murray. Jung: O mapa da alma 1.ed. São Paulo: Cultrix, 2000.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 2.ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2016.
SILVEIRA, Nise da. Jung Vida e Obra. 1.ed. Rio de Janeiro - Paz & Terra, 2023.