O conflito, representado pelo símbolo da cruz, não pode ser contornado, nem o sofrimento evitado. Ao falar isso, Jung gostava de citar Tomás de Kempis em sua afirmação de que o sofrimento é o cavalo que nos leva com mais rapidez à plenitude.
Sofrer significa passar por determinadas situações desconfortáveis, é impossível viver sem passar por incômodos. Frequentemente queremos que alguém nos diga o que estamos sentindo e o que precisamos fazer para “parar de sentir” o mal-estar emocional, a aflição, o desânimo. No entanto, o que a vida pode estar nos pedindo muitas vezes é a disposição comportamental para passar pelo desconforto momentâneo do caminho.
Talvez o mais importante não seja bloquear o sintoma, mas compreender o seu significado. Jung diz que os sintomas são oráculos, querem nos mostrar algo, querem nos “dizer” alguma coisa. O que significa que nem sempre as respostas serão encontradas na busca da causa, mas muito mais em se perguntar qual é o objetivo disso. Tudo tem causa e consequência, tudo tem um porquê, mas, além disso, existe um “para quê”.
Sabemos, por experiência própria, que os nossos sofrimentos neuróticos derivam do fato de estarmos confusos com nós mesmos e com os nossos próprios complexos; se formos sinceros o bastante, para ver a verdade, até o pior complexo ficará mais tolerável, pois então veremos o significado e poderemos nos livrar um pouco da situação confusa. (FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)
Se se puder entender, compreenderá se que esse é o jogo duplo do Uno, que o conflito é necessário e desejado e não deve ser resolvido racionalmente. O único modo como o Si-mesmo pode se manifestar é pelo conflito; enfrentar o eterno e insolúvel conflito é encontrar-se com Deus, o que seria o fim do ego com toda a sua tagarelice. (FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia uma Introdução ao Simbolismo e seu Significado na Psicologia de Carl G. Jung. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022)
“Quando o Si-mesmo não é sustentado, envia uma neurose (psicologicamente, um estado de conflito e depressão em que a pessoa é forçada a prestar atenção ao inconsciente), isto é, a sombra do Si-mesmo entra em ação e Deus e a natureza tornam-se inimigos do homem.” - Von Franz.
Não é possível chegar à terra prometida sem passar pelo deserto, não é possível chegar à expansão da consciência sem passar pelo inconsciente
Jung diz que quem não suporta a dúvida, não suporta a si-mesmo. A certeza só surge a partir da incerteza, assim como a luz só pode ser percebida na escuridão. Sem consciência não existem problemas, como quando somos crianças, no entanto sem problemas não há possibilidade de ampliação de consciência, de crescermos como seres humanos.
Se temos uma atitude consciente pronta para aceitar o oposto, para aceitar o conflito e as contradições, então podemos estabelecer ligação com o inconsciente. Procuramos criar uma atitude consciente, com a qual possamos manter aberta a porta para o inconsciente, o que significa que nunca devemos estar demasiado seguros de nós mesmos, nunca estar certos de que o que dizemos é a única possibilidade, nunca estar demasiado seguros sobre uma decisão.
Isso significa agir de acordo com a nossa convicção consciente, mas possuindo já humildade suficiente para manter a porta aberta e admitir a prova de que estamos errados. Essa seria uma atitude de consciência em conexão viva com o outro lado, o lado escuro, que é desconhecido; aquilo em que não posso penetrar com o pensamento e declarar que sei o que é. Isso é o “inconsciente”, é um conceito que se refere simplesmente àquilo que não está claro na consciência.
A consciência tende sempre a ser unilateral e segura de si mesma, e isso é pernicioso para o mistério da vida. Mas a consciência pode ter a dupla atitude e, nesse caso, elucida o mistério da vida e não lhe causa dano. Tomar sempre em consideração, humilde e cuidadosamente, o fator desconhecido, ou seja, dizer: “ Eu penso que esta é a coisa certa a fazer”, e depois esperar um sinal de advertência de que não estamos levando tudo em conta.
A consciência é essencial para o inconsciente, pois sem ela o inconsciente não pode viver. Mas a consciência é apenas um bom canal de comunicação, através do qual o inconsciente pode fluir, se tem uma atitude dupla, paradoxal. Então o inconsciente pode se manifestar e o endurecimento da atitude consciente contra o inconsciente, o que significa uma divisão da personalidade, pode ser evitado.
O conflito é eterno e deve ser mantido; a unilateralidade da consciência deve ser confrontada continuamente com o paradoxo, significa uma capacidade para enfrentar os opostos. Isso não quer dizer oscilar entre os opostos, mas ao contrário, manter a tensão entre eles.
Uma tendência para unilateralidade é inerente à consciência, está ligada à sua necessidade de clareza e precisão. As pessoas dizem frequentemente, por exemplo, que Jung não escreve de forma muito clara, mas ele faz isso intencionalmente; ele escreve com uma dupla atitude, fazendo jus aos paradoxos do inconsciente. Ele usa um método descritivo, em que os fatos são descritos em duas abordagens complementares que se contradizem mutuamente mas que, no entanto, são necessárias para que a coisa possa ser apreendida como um todo.
O lento processo de tornar-se consciente, a lenta evolução no tempo
Como diz Jung, a pessoa não resolve conflitos: ela os deixa para trás ao evoluir. Portanto, sair de um problema significa uma evolução demorada ou breve. Alguns problemas não podem ser resolvidos, só podem ser ultrapassados mediante uma transformação íntima da pessoa. Ela só poderá desembaraçar-se do problema quando tiver recuperado o equilíbrio.
Se interiormente a pessoa está ligada ao Si-mesmo então ela pode penetrar em todas as situações da vida. Desde que não seja apanhada por elas, poderá atravessar todas as situações; isso significa que há um núcleo muito profundo da personalidade que se mantém desprendido, de modo que, mesmo se acontecerem à pessoa as coisas mais horríveis, a primeira reação não é um pensamento, ou uma reação física, mas, antes, um interesse em saber o que elas significam.
É como se parte da vigilância consciente da personalidade permanecesse firmemente concentrada na significação de qualquer evento da vida, de modo que a pessoa nunca se perde ou é apanhada inconscientemente por ele. O cativeiro psicológico é um fator emocional ou instintivo. Se somos apanhados por uma projeção, por um sentimento de ódio ou de amor, não podemos nos livrar disso, por isso as pessoas sempre dizem: “Lamento profundamente, mas não posso evitá-lo”.
Isso é uma prisão, pois uma prisão é qualquer espécie de fator psicológico em que uma pessoa se sente tolhida, ao passo que, se ela tiver uma percepção consciente do Si-mesmo e estiver constantemente alerta para o Si-mesmo, nada a tolherá; há uma parte íntima da personalidade que permanece livre e não pode mais ser capturada. O estado de impotência, de desamparo, em que a pessoa é apanhada por seus próprios processos internos cessa, o que equivale a um fortalecimento enorme do núcleo da personalidade; isso é compatível à pedra filosofal que é, simbolicamente, o que a firme e inabalável experiência interior forma.
No processo de individuação, com muita frequência, os mesmos problemas surgem repetidamente; eles parecem estar resolvidos, mas passado algum tempo reaparecem. Se encararmos isso negativamente, seremos desencorajados; diremos: “Aí está isso de novo, a mesma velha coisa”; mas quando examinamos mais de perto, simplesmente o problema reapareceu em outro nível. Por exemplo: pode ter-se convertido então num problema de sentimento.
Isso acontece constantemente com o entendimento psicológico: há numerosas camadas e algo sempre pode ser compreendido num nível novo e mais profundo. A pessoa entende-o com uma parte de si mesma e, depois, a ficha cai mais fundo ainda, e a pessoa entende a mesma coisa, mas de um modo muito mais vivo e rico do que antes, e isso pode continuar indefinidamente, até que essa coisa se torne completamente real.
Mesmo que sintamos que compreendemos algo, devemos ter sempre a humildade de dizer que é assim que sentimos de momento; alguns anos depois, poderemos dizer que antes não havíamos entendido nada, mas agora sim podemos compreender o que tal coisa significava.
Isso seria entender simbolicamente uma situação concreta. Se mesmo numa situação completamente material e concreta, posso ver o seu aspecto simbólico, colocando-me fora disso, estou espiritualizando essa situação. Todos os eventos exteriores da vida são, de certo modo, apenas símiles; são simples parábolas de um processo interior, simbolizações sincrônicas. Temos de olhá-los por esse ângulo para os entender e integrar, e isso significa espiritualizar o físico.
Penso que mesmo uma cura ou um desenvolvimento psicológico, o que é a mesma coisa, não muda o conflito nem sana o problema; o que realmente muda é a capacidade para o enfrentar melhor - e esse é o verdadeiro desenvolvimento. O indivíduo já não é mais facilmente dissociado e arrebatado pela emoção, perdendo seu próprio ponto de vista por meio da pressão coletiva por exemplo, mas isso não significa um endurecimento que não possa ser influenciado. Isso significa ser flexível mas inabalável.
O processo de individuação não pode ser forçado mas depende de tempo, de equilíbrio e de paciência, ninguém pode forçar um processo de crescimento. Há coisas no processo interior que não podem ser aceleradas e não adianta ficar impaciente.
Até a mais elevada e mais importante ocupação ligada ao desenvolvimento interior de uma pessoa tem uma qualidade narcisista, e assim tem de ser. Durante algum tempo, a pessoa tem de estar encerrada em si mesma e cuidar de seus próprios assuntos e, em certa medida, não se abrir para a vida durante esse período; isso é inevitável e necessário.
Mas em um momento posterior do processo, toda a natureza do cosmo volta a ser incluída e isso é a relação com Deus. Aquilo que os alquimistas chamam de união do mundo cósmico, o que significa ir além do microcosmo do ser humano e estar aberto para a própria vida, em si mesma - estar relacionado com a vida em seu todo, mediante a observação do processo de sincronicidade.
O processo necessita de ambos os movimentos. O corpo tem de ser espiritualizado e o espírito tem de ser encarnado, ambas as coisas têm de acontecer. Foi isso o que Jung formulou ao dizer que o que é visto do ângulo humano como sendo o processo de individuação, é visto pelo ângulo da imagem de Deus como um processo de encarnação. A encarnação da divindade é Deus descendo para o ser humano. Deus precisa nascer no homem. Essa é a representação do processo simbólico, que começa no caos (conflito e depressão) e termina com o nascimento da fênix (a nova personalidade). (FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia uma Introdução ao Simbolismo e seu Significado na Psicologia de Carl G. Jung. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022).
Referências:
FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.
FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.
FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia uma Introdução ao Simbolismo e seu Significado na Psicologia de Carl G. Jung. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.