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Imaginação Ativa: Dialogando com as fantasias interiores espontâneas

É na intensidade do distúrbio emocional que consiste o valor, isto é, a energia que o indivíduo deveria ter a seu dispor, para sanar o seu estado de adaptação reduzida. Nada conseguimos, reprimindo este estado de depressão ou depreciando-o racionalmente.

 

O estado afetivo inicial é tomado, portanto, como ponto de partida do procedimento da imaginação ativa, a fim de que se possa fazer uso da energia que se acha no lugar errado. O indivíduo torna-se consciente do estado de  ânimo em que se encontra, nele mergulhado sem reservas e registrando por escrito todas as fantasias e demais associações que lhe ocorrerem. 

 

Deve permitir que a fantasia se expanda o mais livremente possível, mas não a tal ponto que fuja da órbita do objeto, isto é, o afeto. É desta preocupação com o afeto que provém uma expressão mais ou menos completa do estado de ânimo que reproduz, de maneira um tanto quanto concreta e simbólica, o conteúdo da depressão.

 

Como a depressão não é produzida pela consciência, mas constitui uma intromissão indesejada do inconsciente, a expressão elaborada do estado de ânimo é como uma imagem dos conteúdos e das tendências do inconsciente que se congregaram na depressão.

 

A imaginação ativa é uma forma de enriquecimento e ilustração do afeto e é por isso que o afeto se aproxima, com seus conteúdos, da consciência, tornando-se, ao mesmo tempo, mais perceptível e, consequentemente, também mais inteligível. O afeto, anteriormente não relacionado, converte-se agora em uma ideia mais ou menos clara e articulada graças precisamente ao apoio e a cooperação da consciência . Isto representa um começo da função transcendente, da colaboração de fatores inconsciente e conscientes.  

 

Pode-se expressar o distúrbio emocional, não intelectualmente mas conferindo-lhe uma forma visível. Os indivíduos que tenham talento para a pintura ou o desenho podem expressar seus afetos por meio de imagens. Importa menos uma descrição técnica ou esteticamente satisfatória, e mais deixar campo livre à fantasia, e que tudo se faça da melhor maneira possível. Tem se então um produto que foi influenciado tanto pela consciência como pelo inconsciente, produto que corporifica o anseio de luz, por parte do inconsciente, e de substância, por parte da consciência.

 

Entretanto, deparamo-nos frequentemente com casos em que não há depressão afetiva palpável, mas apenas um mal-estar genérico surdo, incompreensível, uma sensação de resistência contra tudo e contra todos, uma espécie de tédio ou de vaga repugnância, ou um vazio indefinível, mas persistente. 

 

Nestes casos não se tem um ponto de partida definido; este precisa primeiramente ser criado. Se torna necessária uma introversão da libido, alimentada talvez inclusive por condições externas favoráveis como, por exemplo: uma calma absoluta.

 

A atenção crítica deve ser reprimida. Os tipos visuais devem concentrar-se na expectativa de que se produza uma imagem interior. De modo geral, aparece uma imagem de fantasia que deve ser cuidadosamente observada e fixada por escrito.

 

Os tipos de áudio-verbais em geral ouvem palavras interiores. De início, talvez sejam apenas fragmentos de sentenças, aparentemente sem sentido, mas que devem ser também fixados de qualquer modo.

 

Outros, porém, nestes momentos escutam sua “outra” voz. Algumas pessoas normais, que têm uma vida interior mais ou menos desenvolvida, podem reproduzir estas vozes inaudíveis, sem dificuldades.

 

Há pessoas que nada vêem ou escutam dentro de si, mas suas mãos são capazes de dar expressão concreta aos conteúdos do inconsciente. Aqueles, porém, que são capazes de expressar seu inconsciente através de movimentos do corpo, como a dança, são bastante raros. Um pouco menos frequente, mas não menos valiosa, é a escrita automática, feita diretamente em prancheta. Este procedimento proporciona igualmente resultados muito úteis.

 

O que fazer com o material produzido na imaginação ativa?

 

Não existe resposta pronta para esta questão, porque somente quando a consciência é confrontada com os produtos do inconsciente é que se produz uma reação provisória, que entretanto, determina todo o processo subsequente. A experiência prática da psicologia analítica aponta para duas principais tendências nestes casos. Uma delas vai na direção da formulação criativa e a outra na direção da compreensão.

 

Onde predomina o princípio da formulação criativa, os materiais obtidos aumentam e variam, resultando numa espécie de condensação dos motivos em símbolos estereotipados, onde predominam motivos estéticos.

 

Onde, ao invés, predomina o princípio da compreensão, o aspecto estético interessa muito pouco. Em vez disso, há uma intensa luta para compreender o sentido do produto inconsciente.

 

Ambas tendências são frutos da índole pessoal do indivíduo e contém seus perigos típicos que podem levar a sérios desvios. O perigo da tendência estética consiste na supervalorização do formal ou valor artístico dos produtos da fantasia que afastam a libido do objeto fundamental da função transcendente, desviando-a para os problemas puramente estéticos da formulação artística à custa de seu significado.

 

O perigo do desejo de entender o sentido material tratado está em supervalorizar o aspecto do conteúdo que está submetido a uma análise e a uma interpretação intelectual, o que faz com que se perca o caráter essencialmente simbólico. Ou o desejo de entender se antecipa à necessidade de formular adequadamente o material, que ainda pode não estar claramente perceptível.

 

Um dos caminhos em questão parece ser o princípio regulador do outro; ambos estão ligados entre si por uma relação compensadora. A experiência confirma esta afirmação, a formulação estética precisa da compreensão do significado e a compreensão, por sua vez, precisa da formulação estética. As duas se completam, formando a função transcendente. O caso ideal seria aquele em que os dois aspectos (estético e intelectual) pudessem conviver lado a lado ou se sucedesse ritmicamente um ao outro.

 

Os primeiros passos ao longo destes dois caminhos (estético e intelectual) obedecem ao mesmo princípio: a consciência põe seus meios de expressão ao dispor do conteúdo inconsciente. Em se tratando de forma e conteúdo, a condução do processo deve ser deixada , tanto quanto possível, ao sabor do inconsciente. Esta situação representa uma espécie de retrocesso do ponto de vista consciente, e é sentida como algo de penoso.

 

O intuito deste procedimento é descobrir os conteúdos de tonalidade afetiva, pois trata-se sempre daquelas situações em que a unilateralidade da consciência encontra a resistência da esfera dos instintos.

 

É evidente que só se pode deixar a condução do processo ao inconsciente quando houver nele uma vontade de dirigir. Isto só acontece quando a consciência está de certo modo em uma situação crítica. 

 

A confrontação do ego e inconsciente 

 

Quando se consegue formular o conteúdo inconsciente e entender o sentido da formulação, surge a questão de saber como o ego se comporta diante desta situação. Tem se início a confrontação do ego e o inconsciente. Esta é a segunda e a mais importante etapa do procedimento, isto é, a aproximação dos opostos da qual resulta o aparecimento de um terceiro elemento que é a função transcendente. Neste estágio, a condução do processo já não está mais com o inconsciente, mas com o ego. 

 

O ego se acha confrontado com um fato psíquico, um produto cuja existência se deve principalmente a um evento inconsciente, e por isto se encontra , de algum modo, em oposição ao ego e as suas tendências. 

Um dos requisitos essenciais do processo de confrontação é que se leve a sério o lado oposto. Somente desse modo é que os fatores reguladores poderão ter alguma influência em nossas ações. Tomá-lo a sério não significa tomá-lo ao pé da letra, mas conceder um crédito de confiança ao inconsciente, proporcionando-lhe, assim, a possibilidade de cooperar com a consciência em vez de perturbá-la automaticamente.

 

A confrontação, portanto, não justifica apenas o ponto de vista do eu, mas confere igual autoridade ao inconsciente. A confrontação é conduzida a  partir do eu, embora deixando que o inconsciente também fale. 

 

É exatamente como se travasse um diálogo entre duas pessoas com direitos iguais, no qual cada um dos interlocutores considerasse o outro capaz de lhe apresentar um argumento válido e, por consequência, achasse que valeria a pena aproximar os pontos de vista contrastantes, mediante uma comparação e discussão minuciosa e exaustiva, ou distingui-los clareamento um do outro. Essa capacidade de diálogo interior é um dos critérios básicos da objetividade.

 

Não é absolutamente necessário que o próprio processo de confrontação se torne consciente em todos os seus detalhes. Podemos  nos contentar com o sentimento tácito mais rico de sugestões , que surge e que é mais do que uma conversa brilhante. 

 

O alternar-se de argumentos e de afetos forma a função transcendente dos opostos. A confrontação entre as posições contrárias gera uma tensão carregada de energia que produz algo vivo, um terceiro elemento que não é um terceiro integrante, mas um deslocamento a partir da suspensão entre os opostos e que levou a um novo nível de ser, a uma nova situação.

 

A função transcendente aparece como uma das propriedades características dos opostos aproximados. Enquanto estes são mantidos afastados um do outro, evidentemente para se evitar conflitos, eles não funcionam e continuam inertes. 

 

Como o processo de confrontação com o elemento contrário tem caráter de totalidade, nada fica excluído dele. Tudo se acha envolvido na discussão, embora se tenha consciência de alguns fragmentos. A consciência é ampliada continuamente  ou para sermos mais exatos, poderia ser ampliada pela confrontação dos conteúdos até então inconscientes se se desse ao cuidado de integrá-los.


 

Referências:

 

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da psique Vol. 8/2: a Dinâmica do Inconsciente - Parte 2: Volume 8. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.