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INDIVIDUAÇÃO

“Uso a palavra individuação para designar o processo através do qual um ser torna-se um, ‘individuum’ psicológico, isto é, uma unidade autônoma e indivisível, uma totalidade.”

 

“A individuação significa tender a tornar-se um ser realmente individual; na medida em que entendemos por individualidade a forma de nossa unicidade, a mais íntima, nossa unicidade última e irrevogável; trata-se da realização de seu si mesmo, no que tem de mais pessoal e de mais rebelde a toda comparação. Poder-se-ia, pois, traduzir a palavra ‘individuação’ por ‘realização de si mesmo’, ‘realização do si mesmo’. Carl Jung

 

O todo ou a integridade é o termo-mestre que descreve o objetivo do processo de individuação, e é a expressão, no âmbito da vida psicológica, do arquétipo do si-mesmo.

 

Aquele que busca individuar-se não tem a mínima pretensão a tornar-se perfeito. Ele visa completar-se, o que é muito diferente. E para completar-se terá de aceitar o fardo de  conviver conscientemente com tendências opostas, irreconciliáveis, inerentes à sua natureza, tragam estas as conotações de bem ou de mal, sejam escuras ou claras.

 

O homem só se torna um ser integrado, tranquilo, fértil e feliz quando (e só então) o seu processo de individuação está realizado, quando consciente e inconsciente aprendem a conviver em paz e completando-se um ao outro.

 

Assim sendo, o indivíduo seria um ponto de interseção ou uma linha divisória, nem consciente nem inconsciente, mas um pouco de ambos.

 

O movimento para a individuação não é opcional, não é condicional, não está sujeito a caprichos de diferenças culturais. É um axioma, embora por certo muitas pessoas o ignorem, o reprimam e se debatam em tentativas tortuosas para não admitir sua presença, por medo de parecer inconformistas ou de ser vistas como “diferentes”.

 

Em geral, em torno da meia-idade, a individuação exige que a pessoa se separe das qualidades coletivas com as quais se identificou. A exigência imperativa da individuação é voltar à própria natureza, ao próprio ser verdadeiro.

“Portanto, não é pela diferenciação, como pensais, que deveis lutar, mas sim pelo VOSSO PRÓPRIO SER”. (JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.)

 

Essa busca do próprio ser individual é uma tarefa colossal e continua pelo resto da vida

 

O verdadeiro processo de individuação  - isto é, a harmonização do consciente com o nosso próprio centro interior (o self) - em geral começa infligindo uma lesão à personalidade, acompanhada do consequentemente sofrimento. Esse choque inicial é uma espécie de “apelo”, apesar de nem sempre ser reconhecido como tal. Ao contrário,  o ego sente-se tolhido nas suas vontades ou desejos e geralmente projeta essa frustração sobre qualquer objeto exterior. Ou seja, o ego passa a acusar Deus, a situação econômica, o chefe ou o cônjuge como responsáveis por essa frustração.

 

Algumas vezes tudo parece bem externamente, mas no seu íntimo a pessoa está sofrendo de um tédio mortal que torna tudo vazio e sem sentido. Poderia se dizer que o encontro inicial com o self lança uma sombra sobre o futuro… Só há uma atitude que parece alcançar alguma resultado: voltar-se para as trevas que se aproximam, sem nenhum preconceito e com toda simplicidade, e tentar descobrir qual o seu objetivo secreto e o que vem solicitar do indivíduo.

 

O propósito secreto dessas trevas por vezes pode ser percebido através dos sonhos num fluxo de imagens simbólicas. Mas algumas vezes aparece, inicialmente, uma série de dolorosas constatações do que existe de errado em nós e em nossas atitudes conscientes. Temos então que dar início a esse processo engolindo todo o tipo de verdades amargas.

 

Valerá a pena o árduo trabalho da individuação? Aqueles que não se diferenciam permanecem obscuramente envolvidos numa trama de projeções, confundem-se, fusionam-se com outros e desse modo são levados a agir em desacordo consigo. E é esse “desacordo consigo mesmo que constitui fundamentalmente o estado neurótico.” Prossegue Jung: “ A libertação desse estado só sobrevirá quando se puder existir e agir de conformidade com aquilo que é sentido como sendo a própria verdadeira natureza.” 

 

Esse sentimento será de início nebuloso e incerto, mas, à medida que evolui o processo de individuação, fortalece-se e afirma-se claramente. Então a pessoa poderá dizer, ainda que em meio a dificuldades externas e internas…” Tal como sou, assim eu ajo.”

 

…realizar seu destino é o maior empreendimento do homem… encontrar o sentido profundo da vida é mais importante para o indivíduo do que tudo o mais, e é por esse motivo que o processo de individuação deve ter prioridade.

 

O indivíduo que se entrega seriamente ao processo  de individuação, vai adquirir uma orientação totalmente nova e diferente em relação à vida.

Não se pode predizer o que vai resultar de tudo isso no campo do conhecimento e na vida social dos seres humanos. Mas a mim parece-me certo que a descoberta do processo de individuação pelo dr. Jung é um fato que as gerações futuras terão de levar em conta se desejarem evitar a estagnação ou mesmo uma possível regressão.  Marie Luiz Von Franz (1964).


 

Referências:

 

JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 2.ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2016.

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

SILVEIRA, Nise da. Jung Vida e Obra. 1.ed. Rio de Janeiro - Paz & Terra, 2023.