A ideia de Jung sobre o autoconhecimento, não significa ruminar de maneira subjetiva acerca de nosso ego: “Eu sou assim e assim”. Isso pode até ser útil, mas não é o que entendemos por autoconhecimento, que significa incorporar as informações que obtemos a partir dos sonhos. Em outras palavras, se alguém quer conhecer a si mesmo, em nosso sentido da palavra, tem de aceitar a imagem que o sonho fornece a respeito dele.
Se você sonha que se comporta como um tolo, embora subjetivamente se sinta razoável, deve tomar isso na mais séria consideração, pois, de acordo com o inconsciente, ou de acordo com a luz que o arquétipo do Self derrama sobre o seu comportamento consciente, você está se comportando como um tolo. Este é um elemento de informação objetiva obtida a partir de um sonho, quer você goste ou não, e frequentemente não se gosta do que se sonha. “A natureza nunca é diplomática.” disse Jung certa vez sobre os sonhos.
Esse é o tipo de informação que provém da psique objetiva dentro de nós, e que pensamos ser útil e aconselhável aceitar. Na luz dos nossos sonhos é possível, portanto, reconhecer a si mesmo de maneira diferente da opinião que o ego tem sobre si mesmo, pois ele fornece informações adicionais, que não têm origem no próprio ego.
A maioria dos sonhos é dotada de uma estrutura dinâmica que merece atenção. Frequentemente dizemos ou pensamos, "foi só um sonho" e descartamos como algo sem importância. No entanto o sonho é uma espécie de carta enviada pelo nosso self, o nosso si-mesmo é o poeta secreto e diretor do sonho, contudo a linguagem usada frequentemente nos sonhos são os símbolos, a linguagem simbólica que foi há muito esquecida, por isso a importância de se estudar símbolos e mitos.
O sonho revela todo o necessário
O sonho é como se fosse um texto desconhecido, alguma coisa em grego, sânscrito ou latim, onde desconhecemos algumas palavras. A idéia é que o sonho não se esconde; o que acontece é que não conseguimos compreender a sua linguagem. Há uma máxima que diz que o sonho é a sua própria interpretação. Ele é a totalidade de si próprio. E se julgarmos que há alguma coisa por trás ou algo foi escondido, não há dúvida de que não o entendemos.
“A natureza não comete erros. Certo e errado são conceitos humanos. O processo natural é o que é, e mais nada - não é nem insensatez nem coisa sem razão de ser. Nós não compreendemos, eis a verdade. Já que não somos Deus, mas homens de capacidade intelectual muito reduzida, é melhor que entendamos que não compreendemos os sonhos. Com essa convicção rejeito a abordagem preconcebida que afirma que um sonho é uma distorção, pois aí enxergo que se não entendo é porque minha mente é que é distorcida, e não estou tendo a percepção que deveria ter.” (JUNG, Carl G. Os fundamentos da psicologia analítica. 1.ed. Petropólis: Vozes, 2023.)
O sonho mostra o aspecto subliminar na forma de imagem simbólica e não como pensamento racional. A condição de inconsciência mantém as imagens e ideias num nível de tensão muito menor; elas perdem a clareza e distinção; suas interligações parecem menos consistentes, apenas “vagas analogias”. Elas não parecem enquadrar-se na nossa lógica nem conformar-se com escalas temporais. Dessa maneira, “um sonho não pode produzir um pensamento definido”. Se começar a fazê-lo, deixará de ser um sonho, por ter cruzado o limiar da consciência. A claridade concentrada da nossa consciência do ego tem o “efeito” de “obscurecer” o mundo onírico, da mesma maneira como mal vemos a luz de uma lamparina quando acendemos uma lâmpada elétrica.
O sonho jamais aponta apenas para algo conhecido, mas sempre para dados complexos ainda não percebidos pela nossa consciência do ego. Ele indica um significado que ainda não percebemos de forma consciente.
Um sonho é uma auto representação do fluxo de energia psíquica
Jung considerou os sonhos como um fluxo de eventos, uma sequência de imagens que representam ou visualizam certo fluxo de energia. É por isso que, ao analisar os sonhos é tão importante analisar como eles terminam, pois isso mostra qual foi a meta visada pelo fluxo de energia.
Na análise, enquanto escuto o relato de um sonho, sempre penso “e depois, e depois, e depois?”, e mantenho na mente a frase final do sonho. Por vezes, as pessoas deixam que o sonho termine antes do seu desfecho e, então, eu pergunto: “Foi realmente essa a frase final do sonho?” . “ Sim, aí eu acordei” - e fico sabendo até que ponto chegou o fluxo de energia psíquica. Assim sabemos onde a corrente vital subjacente à consciência está fluindo, que objetivo está visando e em que direção está indo.
A frase abertura de um sonho é importante porque mostra a situação presente, mostra onde aquele que sonha está agora, neste mundo confuso. Depois vem uma sequência de eventos, e a frase final fornece a indicação de para onde a energia está fluindo. Consideramos os sonhos, portanto, como um processo de energia, como uma visualização do fluxo da energia do inconsciente. (FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)
Todo sonho, se ele é realmente compreendido, não apenas com o intelecto mas também emocionalmente, provoca na pessoa um “estalo” do tipo efeito “Aha”. Se você não experimentou esse efeito, você ainda não compreendeu o sonho; ou, então, ele não foi ainda formulado de uma maneira que você possa apreender. Todo sonho compreendido é como um pequeno choque elétrico na consciência superior; normalmente, tem -se este sentimento; “Oh, agora eu compreendo”, e isso possui um efeito vivificante.
Um sonho que se tem à noite é sempre uma carta expedida pelo mesmo centro interior, o Self. Todo sonho é isso, e o redator da carta é sempre o mesmo, o Self, ou a coisa única. Portanto, se você prosseguir por longo tempo tendo essas reações “Aha”, você aos poucos ficará ciente da natureza desse escritor de cartas noturnas, ou constantemente consciente daquilo que ocorre ao redor, da presença e da realidade do Self.
Isso dá ao ego certa paz de espírito. Por exemplo, se você se envolver em alguma confusão exterior, pode se preocupar até certo ponto, mas então você reconhece que deve esperar para ver o que o inconsciente, ou o Self, vai dizer. Assim você terá uma segunda fonte de informações. Não será mais necessário seguir sempre a sua própria voz, e isso dá ao ego uma atitude paciente e certa continuidade, pois ele espera para ouvir a fonte interior de informações por meio da qual ele lidará com a situação impossível, em vez de sair por aí roendo tudo como um rato assustado e pensando - como disse Jung certa vez - “que ele tem de colocar a carroça diante dos bois”. Desse modo a conexão com o Self produz certa quietude e constância na personalidade. (FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)
Para Jung, portanto,o sonho alude, de forma simbólica, ao objetivo em direção ao qual a carga de energia psíquica se movimenta - ou seja, o sonho contém simbolismos antecipatórios de tendências de desenvolvimento.
O sonho permanece sendo um elemento misterioso da realidade psíquica, de que, com compreensão, podemos apenas chegar perto, mas que jamais pode ser esgotado de modo definitivo pela interpretação consciente. (FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.)
Referências:
FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.
FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.
FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.
JUNG, Carl G. Os fundamentos da psicologia analítica. 1.ed. Petropólis: Vozes, 2023