Em termos coloquiais a palavra espírito é usada como algo no gênero de uma substância não material ou o oposto de matéria. Em geral, também usamos a palavra espírito para indicar algo que é um princípio cósmico, mas empregamos a mesma palavra quando nos referimos a certas capacidades ou atividades psíquicas psicológicas do homem, como o intelecto ou a capacidade de pensar ou de raciocinar.
Jung define espírito, do ponto de vista psicológico, como o aspecto dinâmico do inconsciente que produz padrões simbólicos interiores na psique.
O inconsciente tem um aspecto de matriz, de ventre materno, algo semelhante à um lago passivo, onde as coisas que esquecemos caem nesse lago; mas também possui um aspecto dinâmico, de movimento, age espontaneamente, por sua livre vontade - por exemplo, compõe sonhos. Poderíamos dizer que a composição de sonhos enquanto dormimos é um aspecto do espírito, algum espírito superior compõe uma série sumamente engenhosa de imagens que, se pudermos decifrá-la, parecem transmitir uma mensagem bastante inteligente. (FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)
Esta é uma manifestação dinâmica do inconsciente, em que ele faz energicamente algo por sua própria vontade, movimenta-se e cria por sua própria conta, e foi isso o que Jung definiu como espírito. Isso seria o espírito, aquela coisa desconhecida no inconsciente que recompõe e manipula as imagens interiores.
Jung então resume o significado da palavra espírito como sendo “um complexo funcional que, na origem, no nível primitivo, era sentido como uma “presença” semelhante ao vento, invisível. Quando, pois, alguma coisa psíquica que o indivíduo sente como sua acontece nele, esse algo é considerado como o seu próprio espírito. Mas se acontece alguma coisa psíquica que ele considera estranha, esse algo é o espírito de outro, o que também pode ser tomado por um aspecto ainda não integrado do inconsciente.
Esse aspecto “espiritual” do inconsciente tem o poder de movimentar-se espontaneamente e, sem depender de estímulos sensoriais exteriores, produz imagens e pensamentos repentinos no mundo interior da imaginação, e até os ordena de maneira significativa. Pode-se observá-lo mais claramente se se pensar naquele Algo desconhecido que produz sonhos.
Portanto, espírito, de acordo com Jung, é, a princípio, o criador de sonhos: um princípio de movimento psíquico espontâneo que produz e organiza, livremente e segundo suas próprias leis, imagens simbólicas.
Quanto maior é a nossa consciência e quanto mais ela se desenvolve, mais nos apossamos de certos aspectos do espírito do inconsciente, atraindo-os para a nossa esfera subjetiva; e chamamos-lhes, então, de nossa própria atividade psíquica ou de nosso próprio espírito. Mas como sublinha Jung, grande parte do fenômeno original permanece naturalmente autônoma e, por conseguinte, ainda é experimentada como fenômeno parapsicológico.
Tudo o que chamamos hoje de nosso espírito subjetivo, incluindo as nossas atividades mentais em ciência, foi outrora espírito objetivo - quer dizer, o movimento inspirador da psique inconsciente - mas, com o desenvolvimento da consciência, nós nos apoderamos de uma parte que agora manipulamos e a que chamamos nossa, comportando-nos como se fosse algo que possuímos completamente. Nos comportamos como possuidores de “algo” do qual somos apenas veículo para sua manifestação.
Tudo é espírito e matéria é somente espírito concretizado ?
Há a hipótese de que o inconsciente gosta de aparecer em suas manifestações fundamentais, arquetípicas, ora simbolizado por fenômenos naturais, ora personificado. A manifestação numa forma humana demonstraria a possibilidade de relação consciente, ao passo que uma forma não humana, ou uma forma de poder natural, é apenas um fenômeno e só podemos relacionar-nos com ele como tal.
Obviamente, seja o Divino o que for, possui ambos os aspectos. O que é um deus com quem não podemos relacionar-nos? Se não pudermos contar-lhe nada a respeito de nossa alma humana, que utilidade poderia ele ter? Por outro lado, o que é um deus que se limita meramente a ser uma espécie de ser humano e não vai além disso? Ele também parece ser o Outro complementamente misterioso, com quem não podemos relacionar, tal como não é possível nos relacionarmos com os misteriosos fenômenos da natureza.
Portanto, é provável que tenha existido sempre os dois aspectos desse centro interior da psique: um, complementamente transcendente, que se manifesta em algo tão remoto quanto o fogo ou a água; outro, que se manifesta, por vezes, em forma humana, o que significa que então ele estaria se aproximando de uma forma com que se pode estabelecer relação. (FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia uma Introdução ao Simbolismo e seu Significado na Psicologia de Carl G. Jung. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)
Olhando para trás na história podemos dizer que o que vemos agora como duas coisas, e que, por motivo de clareza, tentamos manter separadas, a saber, aquilo que em termos junguianos chamamos de inconsciente coletivo e aquilo que em termos da física chamamos de matéria, eram, para alquimia, sempre uma única coisa. Jung estava convencido de que eram ambos a mesma coisa desconhecida, só que num dos casos observada de fora, e no outro, de dentro. Se você observa com a abordagem extrovertida, de fora, então você chama de matéria. Se você a observa com a abordagem introvertida, de dentro, você a chama de inconsciente coletivo.
Assim como quando se examina uma pintura ou um artesanato, e se fica admirado com ela, pode-se adivinhar muitas coisas sobre o seu autor, da mesma forma, o homem sempre pensou que desvendar o mistério do cosmos e da existência o levaria para mais perto daquela força misteriosa que os criara, qualquer que fosse essa força.
Os realmente grandes criativos tinham o mesmo impulso que os alquimistas: descobrir mais acerca daquele espírito ou coisa divina, ou como quer que vocês o chamem, que existe por trás de toda existência. (FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)
Não são poucos os físicos importantes, que confessada ou inconfessadamente, ainda hoje buscam o “segredo de Deus” em suas investigações da matéria. É ali que, tanto para eles como para os alquimistas, a numinosidade deve ser sentida.
Considerando esta perspectiva, podemos supor que um cientista e um artista estão em busca no fundo da mesma coisa, encontrar e expressar a essência oculta e verdadeira por trás de todas as coisas. Ambos o fazem apenas de pontos de vista diferentes, um partindo de fora (ou matéria) e outro partindo de dentro ( ou pisque).
O problema psique e matéria ainda não foi resolvido, ainda permanece um enigma. A resposta que os alquimistas medievais perseguiam nós tampouco descobrimos. Podemos chamar de sincronicidade, mas não teremos explicado coisa nenhuma. Não sabemos como o inconsciente está ligado à matéria mas apenas que está.
Não sabemos o que é “matéria”, da mesma maneira como não sabemos o que é “ psique objetiva” nem “espírito”. Só podemos descrevê-los indiretamente por meio dos vestígios que deixam em nossas mentes conscientes, mas eles não podem ser definidos em si mesmos. A natureza última dos dois é transcendental, isto é, irrepresentável.
Uma única abordagem do mistério da existência é impossível, devendo haver ao menos duas, a saber, o evento físico ou material de um lado, e seu reflexo psíquico de outro, de modo que é muito difícil decidir o que reflete o quê. Assim sendo, Jung rejeitou toda tentativa de interpretação materialista ou espiritualista da vida. Porque a psicologia “não trata das coisas tais como são em si mesmas, mas apenas daquilo que as pessoas pensam a respeito delas.” (FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.)
Referências:
FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.
FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.
FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.
FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia uma Introdução ao Simbolismo e seu Significado na Psicologia de Carl G. Jung. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.