O EU INCONSCIENTE.png

O que estamos buscando?

Parece que na vida nos deparamos com muito mais perguntas do que respostas. Talvez porque a vida seja um mistério a ser revelado aos poucos e nunca totalmente revelado, apenas parcialmente. O mistério sempre precisa existir, se não, não haverá o que ser descoberto, procurado, encontrado… A vida é nesse sentido, uma jornada de descobertas, investigação, procura…e o que tanto buscamos? Penso que no fundo estamos à procura de uma parte de nós mesmos, uma parte desconhecida.

 

A expressão “apenas psicológico” implica que a psicologia seja “apenas” aquilo  que o homem sabe de si mesmo… enquanto para Jung a psicologia significa, primeiro e principalmente, uma investigação empírica da parte desconhecida da psique, que se manifesta nos sonhos, nos lapsos de linguagem, nas fantasias involuntárias, nas súbitas convicções vindas do nada. Essas ocorrências vêm de uma psique objetiva para a qual não podemos fixar limites e à qual jamais podemos nos referir legitimamente como “meu” inconsciente. “Não se pode chegar aos limites da alma caminhando; mesmo que se percorrem às pressas todas as ruas, seu sentido é por demais profundo.”

(FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.)

 

Não estamos em busca de quem somos, mas do que somos

 

… mas ninguém consegue tomar consciência de si mesmo se não sabe o que ele é, e não quem ele é.

(FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)

 

O “quem” remete a personalidade consciente, já “o que” remete a substância, ou a essência seja a melhor palavra. O que somos em essência? Essa é a grande pergunta que conscientemente ou inconscientemente nós fazemos.  Essa é a busca que subjaz às nossas dúvidas e questionamentos. Nós buscamos a essência oculta e verdadeira de todas as coisas, inclusive de nós mesmos.

 

“O verdadeiro conhecimento de si mesmo é o conhecimento da psique objetiva, tal como ela se manifesta nos sonhos e nas manifestações do inconsciente. Por exemplo, apenas examinando seus sonhos pode-se saber quem uma pessoa é de verdade; eles nos dizem quem somos realmente, isto é algo que está objetivamente presente lá. Meditar sobre isso é um  esforço em busca de autoconhecimento, pois trata-se de algo científico e objetivo, que não está voltado para o interesse do ego, mas sim para o interesse do “o que é que eu sou” objetivamente falando. É o conhecimento do Self, da personalidade objetiva e mais ampla.”

(FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)

 

O sentido da vida está na busca

 

Silenciar essa procura, essa inquietude é como tentar abafar o ar, nos sentimos sufocados, porque essa busca é como ar para nossa vida física, ela representa o ar para nossa vida espiritual. Precisamos dela como precisamos do ar. Somos buscadores da nossa essência, da nossa alma, de nós mesmos. É como a busca por um tesouro, intuímos que estamos em busca de “algo” que tem valor para nós. 

 

Ao que parece a consciência só é possível por meio da experiência, então acredito que este seja o sentido da vida, o sentido de estarmos aqui…experienciar. Uma experiência temporária certamente, mas podemos perceber que é dirigida por “algo” além de nós, “uma força”, “uma energia” que transcende a nossa experiência humana. Estamos aqui de passagem, mas é uma passagem que tem um sentido, um propósito.

 

O objetivo da vida nesse sentido é a aprendizagem, as respostas precisam ser encontradas em vida. É na vida terrestre, consciente que no choque dos contrários, o nível da consciência pode elevar-se. A grande significação da vida terrestre está em o quanto do inconsciente é possível tornar consciente.

 

Se pararmos e observarmos com atenção é possível ver uma “força” atuando, direcionando as vezes de forma sutil, por meio de sincronicidades, às vezes de forma mais densa, por meio de situações desafiadoras, que a princípio possam parecer desagradáveis, porque vão de encontro às nossas vontades ou consciência do momento. Mas se observarmos em retrospecto, conseguiremos ver um fio condutor que tem um certo sentido.

 

“Schopenhauer, em seu esplêndido ensaio intitulado “Sobre a aparente intencionalidade no destino do indivíduo”, assinala que, quando você alcança uma idade avançada e olha para o tempo de vida que ficou para trás, pode lhe parecer que este teve uma ordem e um plano consistentes, como se concebidos por algum romancista. Acontecimento que, quando ocorreram, pareciam acidentais e passageiros transformam-se em fatores indispensáveis na composição do enredo. Então, quem compôs esse enredo? Schopenhauer sugere que, assim como os sonhos se engendram a partir de um aspecto seu que é ignorado por sua consciência, toda sua vida é engendrada pela vontade que há em você. E, assim como as pessoas que você teria conhecido por mero acaso transformam-se em agentes importantes na estruturação da sua vida, você também terá servido, sem o saber, como um agente atribuidor de significação às vidas de outras pessoas. O sistema todo movimenta-se e ajusta-se como uma grande sinfonia, em que cada coisa inconscientemente estrutura as demais. E Schopenhauer conclui  que é como se nossas vidas fossem as imagens do grande sonho de um único sonhador, em que todos os personagens do sonho sonhassem também; desse modo, tudo se liga a tudo, movido por uma vontade da vida que é a vontade universal da natureza.”

(CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. 36.ed. São Paulo: Palas Athena, 2024.)

 

Referências:

 

FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. 36.ed. São Paulo: Palas Athena, 2024.