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Filme: O Último Samurai - O velho (inconsciente) se une ao novo (consciência)

 

 

Filmes são imagens arquetípicas contemporâneas, isto significa que representam formas, padrões de comportamentos, muitas vezes inconscientes, nos homens de nossa época. Desde os tempos sem princípio, esses padrões se expressam por meio das mais diversas formas de arte, não seria diferente com a chamada sétima arte.

 

Proponho aqui ampliarmos a visão sobre o filme O Último Samurai à luz da psicologia Junguiana. Como Jung escreveu sobre a dinâmica da alma (ou psique), será necessário um certo nível de abstração e tentativa de visão simbólica. Visto que o que acontece na psique é melhor entendido se comparado a... do que explicado com conceitos.

 

O filme narra a história do Capitão Nathan Algren (Tom Cruise), veterano das guerras indígenas nos Estados Unidos. Posteriormente, Algren é convidado por seu ex-comandante para participar com ele do treinamento do recém-criado Exército Imperial Japonês. 

 

Após começar o treinamento dos soldados do Exército Imperial, Algren percebe que não estão prontos para lutar e não podem vencer mesmo com armas de fogo. No entanto, seu comandante, o Coronel Bagley, insiste em enviá-los para a batalha contra os samurais.

 

Algren luta bravamente até ser rendido pelo líder dos Samurais, que fica impressionado com a bravura de seu adversário, poupando-lhe assim a vida, mas levando-o como prisioneiro.

 

E a partir daqui começa então nossa análise simbólica. Proponho um exercício de comparação, comparemos o Capitão Nathan Algren à consciência do homem contemporâneo e o líder dos Samurais, Katsumoto, à representação do inconsciente.


 

O confronto da consciência com o inconsciente

 

 

É o inconsciente (Katsumoto) que aprisiona e, ao mesmo tempo, provoca a consciência (Algren). “O que quer para si?” (filme O Último Samurai). Na segunda metade da vida, somos impelidos ao confronto com o nosso inconsciente, quer queiramos ou não, quer saibamos disso ou não. E quanto mais resistimos a esse encontro, mais sofremos com depressões, neuroses, psicoses, em outras palavras, as dores da alma.

 

A princípio, a consciência despreza o inconsciente, não compreende seus modos, seus costumes parecem estranhos. Mas quando a consciência (Nathan) fica prisioneira do inconsciente no inverno, no meio das montanhas, onde não é possível fugir, se vê obrigada a olhar para dentro, o que a princípio é doloroso, pois é necessário confrontar suas sombras (culpa, vergonha, conflitos pessoais e emocionais) sem “anestesiar-se” com a bebida. 

 

A experiência do confronto com o inconsciente se dá no plano das emoções e no plano da mente. Algren apresenta extraordinária resiliência em suas tentativas de aprender a lutar como os samurais, o que impressiona seu anfitrião (o inconsciente). Jung certa vez disse que apenas uma consciência fraca e dependente se opõe ao inconsciente. A consciência de si mesmo requer encarar suas sombras.

 

Nathan (a consciência), que foi recrutado para ensinar algo, vê-se agora aprendendo com Katsumoto e seu modo de vida e do seu povo. O inconsciente é uma fonte inesgotável de conhecimento sobre nós mesmos e sobre a humanidade ao longo do tempo. O inconsciente é a própria fonte da vida

“… então venho ao lugar dos meus ancestrais…” (filme O Último Samurai).

 

A consciência (Nathan Algren) passa a usar então a escrita como forma de expressar seus pensamentos e sentimentos enquanto está prisioneiro do inconsciente. Jung disse que no confronto com o inconsciente é preciso encontrar alguma forma de expressá-lo, a fim de criar uma ponte para a realidade.

 

“Muitas coisas aqui, eu jamais entenderei… Mas existe de fato algo espiritual neste lugar. E, apesar de talvez jamais entender… eu não posso deixar de sentir este poder.” (filme O Último Samurai)

 

O inconsciente tem esta conotação espiritual, talvez porque nos remete a algo que é desconhecido, que não pode ser compreendido em sua totalidade, ao menos não entendido com o pensamento, mas sobretudo compreendido por meio do sentir.

 

 

Não podemos esquecer quem nós somos e de onde viemos

 

 

Algren, após ser “libertado” tem a oportunidade de retornar ao seu velho mundo consciente, mas decide retornar ao Samurai (inconsciente) e se aliar a ele para trazer consciência ao imperador, o representante de uma nação, isto é, uma consciência coletiva. 

 

O novo não pode simplesmente substituir o antigo, mas o novo deve se unir ao velho, pois dessa forma há o acúmulo de conhecimentos e experiências. Dessa forma, há a expansão da consciência humana por um lado e, por outro lado, há o acúmulo de riquezas no inconsciente coletivo.

 

Somos indivíduos, uma consciência pessoal expressando uma psique impessoal, comum a todos os seres humanos, o inconsciente coletivo, é dele que viemos. O inconsciente coletivo representa a parte objetiva do psiquismo, assim como o inconsciente pessoal representa a parte subjetiva do psiquismo. O coletivo se expressa no individual.


A consciência e o inconsciente não podem dominar um ao outro, mas devem cooperar entre si. A consciência jamais conseguiria dominar o inconsciente, visto que o inconsciente é infinitamente maior do que a consciência. E se o inconsciente domina a consciência, então esta se dissolve no vasto oceano do inconsciente e o sentido desta vida se perde, não alcança o seu objetivo, a individuação, ou seja, a união entre consciência e inconsciente em cada indivíduo.

 

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