Persona é o nome inspirado pelo termo romano para designar a máscara de um ator. É o rosto que usamos para o encontro com o mundo social que nos cerca. É a pessoa que passamos a ser em resultado dos processos de aculturação, educação e adaptação aos nossos meios físico e social.
Jung estava interessado em apurar como as pessoas chegam a desempenhar determinados papéis, a adotar atitudes coletivas convencionais e a representar estereótipos sociais e culturais, em vez de assumirem e viverem sua própria unicidade.
A persona é construída, diz Jung, de porções do coletivo com as quais o ego se identifica que funcionam para facilitar a adaptação ao mundo social circundante. A persona é efetivamente um “segmento da psique coletiva”, mas ela imita a individualidade. Sua existência pode ser, portanto, uma sutil inimiga da individuação, caso não se a conscientize como “máscara”. “Os seres humanos possuem uma faculdade que, embora seja da maior utilidade para propósitos coletivos, é sumamente perniciosa para a individuação; trata-se da faculdade de imitação.”
Embora isso possa servir aos interesses de uma pessoa até certo ponto - porque, afinal de contas, todos precisam se adaptar à sociedade e à cultura, e, porque uma persona bem construída é uma vantagem evidente para propósitos práticos de sobrevivência e sucesso social -, esse não é, sem dúvida nenhuma, o objetivo da individuação. Trata-se apenas de um ponto de parada para então iniciar o processo de individuação.
Quanto mais a persona aderir à pele do ator, tanto mais dolorosa será a operação psicológica para despi-la. Quando é retirada a máscara que o ator usa nas suas relações com o mundo, aparece uma face desconhecida.
A persona está para a consciência assim como a sombra está para o inconsciente
Olhar-se em um espelho que reflita cruelmente essa face é decerto um ato de coragem. Será visto nosso lado escuro, onde moram todas as coisas que nos desagradam em nós, ou mesmo que nos assustam. É nossa sombra. A sombra (em sentido psicológico) faz parte da personalidade total. As coisas que não aceitamos em nós, que nos repugnam e que por isso reprimimos, nós a projetamos no outro, seja ele o nosso vizinho, o nosso inimigo político ou uma figura-símbolo como o demônio. E assim permanecemos inconscientes de que as abrigamos dentro de nós.
“A sombra personifica o que o indivíduo recusa conhecer ou admitir e que, no entanto, sempre se impõe a ele, direta ou indiretamente, tais como traços inferiores do caráter e outras tendências incompatíveis…” Jung
A sombra é o lado inconsciente das operações intencionais, voluntárias e defensivas do ego (lembrando que o ego é o centro da consciência). Não é diretamente experimentada pelo ego e, sendo a sombra inconsciente, é sempre projetada em outros.
É uma espessa massa de componentes diversos, aglomerando desde pequenas fraquezas, aspectos imaturos ou inferiores e complexos reprimidos. Mas também na sombra poderão ser discernidos traços positivos, qualidades valiosas que não se desenvolveram.
Persona e sombra são estruturas complementares que existem em toda psique
No plano psicológico, a persona é um complexo funcional cuja tarefa consiste tanto em esconder quanto em revelar os pensamentos e sentimentos conscientes de um indivíduo aos outros. É a estrutura psicológica que se comunica com o mundo coletivo social externo.
A sombra, um complexo funcional complementar, é uma espécie de contra-pessoa, que pode ser pensada como uma sub-personalidade que quer o que a persona não permitirá.
No entanto, a sombra ultrapassa os limites do pessoal e alonga-se na sombra coletiva. Veremos então pessoas “civilizadas”, quando reunidas em massa, portarem-se segundo os mais inferiores padrões. Caírem presas de preconceitos coletivos de discriminações raciais. Tornarem-se ávidos, destrutivos, sanguinários. Os exemplos são múltiplos e infelizmente estão presentes no mundo contemporâneo.
Por que entrar em contato com a sombra?
Se uma pessoa rechaça completamente a sombra, a vida torna-se terrivelmente incompleta. Ao abrir-se para a experiência da sombra, entretanto, uma pessoa alcança um maior grau de totalidade.
Lançar luz sobre as nossas sombras tem como resultado o alargamento da consciência, pois já não é o outro quem está sempre errado. Descobrimos que frequentemente “a trave” está em nosso próprio olho.
Na sombra encontramos elementos duais, positivos e negativos, preciosos para o caminho da nossa coesão, inteireza e completude.