É o arquétipo central da ordem, da totalidade do homem, representado simbolicamente pelo círculo, pelo quadrado, pelo quatérnio, pela criança, pela mandala... O si mesmo é o centro e também a circunferência completa que compreende ao mesmo tempo o consciente e o inconsciente. A denominação de self não cabe unicamente a esse centro profundo, mas também à totalidade da psique.
Ao decorrer dos tempos, os homens, por intuição, estiveram sempre conscientes desse centro. Os gregos o chamavam de daimon, o interior do homem; no Egito ele estava expresso no conceito de alma- Ba; e os romanos adoravam-no como o “gênio” inato em cada indivíduo. Em sociedades mais primitivas imaginavam-no muitas vezes como um espírito protetor, encarnado em um animal ou fetiche.
Toda realidade psíquica interior de cada indivíduo é orientada, em última instância, em direção a este símbolo arquetípico do self. O si mesmo é o centro magnético do universo psicológico de Jung. Sua presença atrai a agulha da bússola do ego para o norte verdadeiro.
Podemos pensar no si-mesmo como uma entidade cósmica que emerge na vida humana e se renova interminavelmente em suas rotações através da psique. O si mesmo, uma entidade não-psicológica transcendente, atua sobre o sistema psíquico para produzir símbolos de integridade, frequentemente como imagens de quaternidade ou mandalas (quadrados e círculos).
A expressão por excelência da totalidade psíquica é a mandala, Mandala, palavra sânscrita, significa círculo, ou círculo mágico. O centro da mandala representa o núcleo central da psique (o self), núcleo que é fundamentalmente uma fonte de energia:
“A energia do ponto central manifesta-se na compulsão quase irresistível para levar o indivíduo a tornar-se aquilo que ele é, do mesmo modo que todo organismo é impulsionado a assumir a forma característica de sua natureza, sejam quais forem as circunstâncias” (Jung).
“O seu significado como símbolos da unidade e da totalidade é corroborado no plano da história e também no plano da psicologia empírica. O que à primeira vista parece uma noção abstrata representa, na realidade, algo que existe e pode ser conhecido por experiência… A integridade constitui, portanto, um fator objetivo que se defronta com o sujeito independente dele.” Jung
Para Jung o conceito de si mesmo oferecia a melhor explicação que era possível oferecer para um dos mistérios centrais da psique - sua criatividade aparentemente milagrosa, sua dinâmica centralizadora e suas estruturas profundas de ordem e coesão.
O sistema psíquico como um todo consiste em muitas partes. Pensamentos e imagens arquetípicas situam-se num pólo do espectro, as representações de pulsões e instintos no outro extremo, e entre os dois encontra-se uma vasta quantidade de material pessoal, como memórias esquecidas e relembradas, e todos os complexos. O fator que ordena todo esse sistema e o mantém unido e coeso é um agente invisível chamado si-mesmo. Este é o que cria os equilíbrios entre os vários outros fatores e os ata numa unidade funcional.
Em suma, o si mesmo é o centro e cabe-lhe a tarefa de unificar as peças. Mas faz isso a uma distância considerável, como o sol influenciando as órbitas dos planetas. A sua essência situa-se além das fronteiras da psique. Nesse sentido, Jung diria que o si-mesmo é infinito. Pelo menos, não podemos dizer com base em provas empíricas onde se localizam suas bordas. Isto foi o mais longe que Jung avançaria, conforme assinala em sua autobiografia, mas é certamente uma boa distância.
As relações com o self
Hoje em dia, um número cada vez maior de pessoas, sobretudo as que vivem nas grandes cidades, sofre de uma terrível sensação de vazio e tédio, como se estivesse à espera de algo que nunca acontece. Cinema, televisão, espetáculos esportivos e agitações políticas podem distraí-las por algum tempo mas, exaustas e desencantadas, acabam sempre voltando ao deserto de suas próprias vidas.
Jung salientou que a única aventura real que resta ao indivíduo é a exploração da sua própria inconsciência. O alvo supremo de tal busca é a formação de um relacionamento harmonioso e equilibrado com o self. A mandala circular retrata esse equilíbrio perfeito.
A tentativa para darmos à realidade viva do Self uma porção de atenção cotidiana constante é como tentar viver simultaneamente em dois planos ou em dois mundos diferentes. Ocupamo-nos com as nossas tarefas exteriores, mas ao mesmo tempo mantemo-nos alertas às insinuações e sinais, tanto dos sonhos quanto dos acontecimentos exteriores que o self utiliza para simbolizar suas intenções - a direção para onde se move o fluxo da vida.
Assim, durante a nossa vida exterior cotidiana, de repente se é envolvido em uma empolgante aventura interior; e pelo fato de ser única para cada indivíduo, não pode ser copiada ou roubada.
De fato, cada vez que o ser humano volta-se honestamente para o seu mundo interior e tenta conhecer-se - não remoendo pensamentos e sentimentos subjetivos, mas seguindo as expressões da sua própria natureza objetiva, como os sonhos -, mais cedo ou mais tarde o self emerge.
A plena expressão e manifestação da personalidade leva uma vida inteira para desenrolar-se. O si-mesmo emerge pouco a pouco, através de numerosos estágios do desenvolvimento descrito por Jung como processo de individuação.
Referências:
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. 2.ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2016.
JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.
STEIN, Murray. Jung: O Mapa da Alma. 1.ed. São Paulo: Cultrix, 2000.