O EU INCONSCIENTE.png
sentimento e a energia  psi.png

A Função Sentimento e a Energia Psíquica

Entre os polos consciência do ego e inconsciente e entre os polos matéria e espírito há uma carga de energia que leva a processos energéticos ou a um fluxo de energia psíquica. Jung considerava a vida psíquica como um processo energético, contudo ele não considerava essa energia como libido psicossexual, mas como algo em si mesmo inteiramente indefinido quanto ao conteúdo.

 

Somente no campo da experiência real ela aparece como poder, impulso, desejo, vontade, afeto, realização no trabalho, etc. No momento, a energia psíquica não pode ser medida em termos quantitativos. Entretanto, a intensidade de determinados pensamentos ou emoções pode ser estimada por meio da função sentimento. A qualidade de um afeto pode ser sentida com clareza.

 

A energia psíquica movimenta-se num padrão polar, por um lado, entre a extroversão e a introversão, e , por outro, entre pulsações regressivas e progressivas. Pulsação progressiva é um movimento vital que se dá para a frente, (para  dentro e para fora), no sentido de um desenvolvimento adicional, ao passo que a regressiva é um recuo temporário para formas de vida anteriores, com o fim de trazer à tona valores abandonados no passado e incorporá-los à situação psíquica presente, ou de reunir condições para dispor de energia para novos empreendimentos. 

 

Em sua essência, a energia psíquica se expressa em qualidade. Trata-se de um fator qualitativo, sendo esse o motivo pelo qual Jung afirma que só podemos medir a intensidade psicológica pela função sentimento. (FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022)

 

A função sentimento, em comparação com a função pensamento, informa-nos sobre a qualidade das coisas, diz-nos se uma coisa é agradável ou desagradável, perigosa ou inofensiva, ameaçadora ou não. Nós expressamos as qualidades por meio dos adjetivos. As pessoas que usam muitos adjetivos dão colorido ao que dizem com o seu sentimento (os artistas usam sempre muitos adjetivos, palavras que expressam qualidades), ao passo que as pessoas mais identificadas com o pensamento usam muito poucos adjetivos e numerosos substantivos em suas falas, porque estão unicamente interessadas  na definição do que é o quê, e ignoram a qualidade. 

 

O valor emocional do conteúdo arquetípico é tão importante quanto sua compreensão. Eis por que Jung diz: “ A psicologia é a única ciência que tem de levar em consideração o elemento de valor (isto é o sentimento), pois ele constitui o vínculo entre os eventos psíquicos e a vida. Costuma-se acusar a psicologia de, nesse aspecto, não ser científica; mas seus críticos não conseguem compreender a necessidade prática e científica que tem a psicologia de dar ao sentimento a devida consideração.

 

O efeito de qualquer arquétipo pode ser tanto negativo quanto positivo. Quando atuam de modo positivo, os arquétipos estão por trás de toda realização humana criativa no âmbito da cultura. São a origem da inspiração na poesia, na pintura, e em todas as outras artes; são a fonte de novos modelos científicos; e dão forma a ideias e conceitos característicos de um momento e de uma época específicos.

 

A função criativa da dinâmica psíquica sempre se manifesta na pessoa individual 

 

Somente no indivíduo as novas ideias, as inspirações artísticas e as intuições e fantasias construtivas são criadas e por vezes, depois, tomadas e imitadas pelo grupo a que o indivíduo pertence. Analisando comportamentos, observou-se que, a princípio, apenas o animal  individual experimenta novas variações comportamentais (por exemplo, ficar num local específico graças à comida oferecida, em vez de migrar de forma tradicional). Na medida em que pareça ter sucesso, ele é imitado pelo grupo. O espírito criativo parece, pois, estar vinculado de modo incondicional ao princípio da individuação.

 

Equipes ou grupos também podem funcionar de maneira criativa; mas, numa observação mais cuidadosa , descobre-se que também no seu âmbito a pessoa individual deve “fazer suas próprias coisas”, como dizem os hippies. Pequenos estímulos e inovações surgem por vezes de um grupo, mas a ação criativa importante, genuína, sempre se origina na pessoa individual em busca do seu próprio modo de viver. A solução de novos problemas sempre é conseguida, em primeiro lugar por indivíduos, sendo então imitada por outras pessoas. O futuro sempre pertence, em última análise, aos que moldam criativamente novas formas de vida.

 

Vistos por essa ótica, os programas de certas comunidades hippies, o cultivo da terra e o trabalho manual criativo são dignos de nota. Numa entrevista, Jung acentuou a sua opinião de que o descontentamento revolucionário das massas urbanas pode ser atribuído ao fato de o trabalho ter sido desespiritualizado na indústria. (FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.)

 

O trabalho de um camponês ou fazendeiro é significativo em si mesmo e satisfaz a alma humana; o artesão deve na realidade renunciar ao produto do seu trabalho, mas mesmo assim encontra satisfação no orgulho da realização trazido pelo produto.

 

No entanto, o trabalho na linha de produção significa empobrecimento espiritual, porque a fantasia criativa é desperdiçada ou reprimida. Jung acreditava que os trabalhadores descontentes costumam atribuir erroneamente seus ressentimentos a circunstâncias externas, visto serem incapazes de perceber que sua alma está necessitada. 

 

A tentativa hippie de encorajar o reconhecimento do componente criativo do trabalho parece, portanto, ser genuinamente significativa, em sua busca de elementos criativos e, em especial, ao voltar-se para o interior de si mesmo.

 

Referências:

 

FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.

FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.