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Coincidência significativa entre eventos psíquicos e físicos

Sincronicidade foi o termo criado por Jung, que exprime uma coincidência significativa ou uma correspondência que pode ocorrer de duas formas:

 

  1. entre um acontecimento psíquico e um acontecimento físico não ligados por uma relação causal. Tais fenômenos de sincronicidade aparecem , por exemplo, quando fenômenos interiores (sonhos, visões, premonições) parecem ter uma correspondência na realidade exterior: a imagem interior ou a premonição tornou-se verdadeira.
  2. entre sonhos, ideias análogas ou idênticas que ocorrem em lugares diferentes, sem que a causalidade possa explicar tais manifestações. 

 

Ambas formas parecem ter relação com processos arquetípicos do inconsciente. Jung também sublinha que a sincronicidade parece depender em considerável medida da presença de afetividade, ou seja, sensibilidade e estímulos emocionais.

 

“Escolhi o termo sincronicidade porque a aparição simultânea de dois acontecimentos ligados pela significação, mas sem relação causal, me pareceu um critério decisivo. Emprego, pois, aqui o conceito geral de sincronicidade no sentido especial de coincidência, no tempo, de dois ou vários elementos, sem relação causal e que tem o mesmo conteúdo significativo ou um sentido similar. Isto não é o mesmo que sincronismo cujo significado é apenas o da aparição simultânea de dois fenômenos.”(JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.)

 

Desafiar o próprio pensamento causal, reconhece Jung, é ir contra a natureza do senso comum. Então por que fazê-lo?  Porque existem eventos que não podem ser cobertos por nenhuma das teorias de causalidade.

 

A sincronicidade não é mais enigmática nem misteriosa do que as descontinuidades na física. As coincidências de acontecimentos ligados pelo sentido são pensáveis como puro acaso. Mas quanto mais se multiplicam e mais a concordância é exata, mais a probabilidade do acaso diminui e mais aumenta sua inverossimilhança, o que significa que não podem mais passar por simples acaso, mas devem, devido ausência de explicação causal, ser olhadas como ordenações que tem sentido. A inexplicabilidade da sincronicidade não é devida a ignorância de sua causa, mas ao fato de que nosso intelecto é incapaz de pensá-la…. (JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.)

 

“Minhas pesquisas no campo da psicologia dos processos inconscientes levaram-me a procurar outras explicações para o esclarecimento de certos fenômenos da psicologia profunda, uma vez que o princípio da causalidade me parecia insuficiente. Descobri, inicialmente, que existem manifestações psicológicas paralelas que não se relacionam absolutamente de modo causal, mas apresentam uma forma de correlação totalmente diferente. Tal conexão parecia basear-se essencialmente na relativa simultaneidade dos eventos, daí o termo “sincronicidade”. (JUNG, C. G. e WILHELM R. O Segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês. 15.ed. Petropólis: Vozes, 2013.)

 

Longe de ser uma abstração, o tempo se apresenta como continuidade concreta, contendo qualidades e condições básicas que podem se manifestar em locais diferentes com relativa simultaneidade, num paralelismo que não se explica de forma causal; por exemplo, na ocorrência simultânea de pensamentos, símbolos ou estados psíquicos similares.

 

Jung então amplia um pouco mais a definição de sincronicidade, considerando que esta relaciona-se com a organização acausal no mundo. A sincronicidade fala da profunda e oculta ordem e unidade entre tudo o que existe.

 

A psique não é algo que começa e termina somente em seres humanos e em isolamento do cosmo. Há uma dimensão na qual a psique e o mundo interagem intimamente e se refletem reciprocamente. Esta é a tese de Jung. (STEIN, Murray. Jung: O mapa da alma 1.ed. São Paulo: Cultrix, 2000.)


 

De fato, ele considerou que a significação da vida humana neste planeta está vinculada à nossa capacidade de conscientização, ao adicionar ao mundo uma percepção reflexiva de coisas e significados que, caso contrário, passariam eternidades sem que fossem vistos, pensados, ou reconhecidos. Para Jung, a subida à consciência de padrões e imagens oriundas das profundezas do inconsciente coletivo fornece ao gênero humano seu propósito no universo, pois somente nós (até onde nos é dado saber) estamos aptos a perceber esses padrões e a dar expressão ao que percebemos. Dito de outra maneira, Deus precisa de nós a fim de tornar-se presente na consciência.

 

Cada um de nós é o portador de um fragmento da consciência de que os tempos necessitam para ampliar o conhecimento dos motivos subjacentes que se desenrolam na história. Sonhos individuais de natureza arquetípica, por exemplo, podem estar a serviço dos tempos, compensando a unilateralidade da cultura, e não só da consciência do indivíduo. 

 

A sincronicidade deve ser levada em conta para se chegar a uma resposta à questão do significado. Ingressar no mundo arquetípico de eventos sincronísticos gera a sensação de se estar vivendo na vontade de Deus.

 

Nós, seres humanos, temos um papel a desempenhar no universo. A nossa consciência é capaz de refletir o cosmos. A psique humana e a nossa psicologia pessoal participam da maneira mais profunda na ordem desse universo por intermédio do inconsciente. Mediante o processo de psiquização, configurações de ordem no universo tornam-se acessíveis à consciência e podem, finalmente, ser entendidas e integradas. Cada pessoa pode testemunhar o Criador e as obras criativas de dentro, por assim dizer, prestando atenção à imagem e à sincronicidade. Pois o arquétipo é não só o modelo da psique, mas também reflete a real estrutura básica do universo.

 

“Como em cima, assim embaixo”, falaram os sábios antigos. “Como dentro, assim fora”, responde o moderno explorador da alma, Carl Gustav Jung. (STEIN, Murray. Jung: O mapa da alma 1.ed. São Paulo: Cultrix, 2000.)



 

Referências:

 

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.

 

STEIN, Murray. Jung: O mapa da alma 1.ed. São Paulo: Cultrix, 2000.

 

JUNG, C. G. e WILHELM R. O Segredo da flor de ouro: um livro de vida chinês. 15.ed. Petropólis: Vozes, 2013.

 

Em cada um de nós existe um aspecto único de DEUS.jpg