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Uma visão simbólica do filme TITANIC

 

A personagem Rose conta na história o conflito interior em que ela vive, porém, que ela mesma está inconsciente. Ao iniciar contando a história sobre o enorme navio construído até então, para muitos ele era o navio dos sonhos, mas para ela era um navio de escravos, que estava levando-a acorrentada da Irlanda à América.

 

Rose embarca com o noivo Cal, e a sua mãe, como nos mitos, contos e nos sonhos, onde todos os personagens coadjuvantes são na verdade “aspectos” do protagonista/sonhador. Cal o noivo representa a parte da personalidade de Rose que está adaptada ao mundo exterior, ao mundo das aparências, ao consciente coletivo, como Cal é um grande empresário de sua época é ele quem patrocina a vida extravagante e luxuosa de Rose e da mãe dela. Cal representa também a parte consciente da personalidade que não conhece, não percebe que existe um outro mundo além do mundo dos objetos e das aparências.

 

A mãe de Rose representa um estado psíquico inconsciente de Rose, esse estado psíquico inconscientemente se identifica apenas com o mundo exterior, dos prazeres, dos objetos de luxo, das festas elegantes, dos chás da tarde. Esse é um aspecto negativo do inconsciente, uma vez que deveria atuar como compensador da parte consciente regulando-a, no entanto, nesse caso a energia do inconsciente foi sugada pela parte consciente (mas sempre há um valor remanescente de energia do inconsciente que não pode ser de toda sugada pela parte consciente) fazendo com que este último se comporte de uma maneira unilateralizada. 

 

Rose vive um conflito inconsciente, pois uma parte de sua personalidade que é inconsciente reclama uma vivência no palco da vida de Rose. Rose possui uma pequena chama dessa parte sua inconsciente, isso é percebido através da coleção de quadros artísticos de pinturas. A cena que aparece ela em sua cabine luxuosa desembrulhando os quadros e olhando para eles, aponta uma sensibilidade irracional que a toca profundamente, porém, ela não sabe o porquê, Cal pergunta para ela quem é o autor das pinturas, ela responde: “Alguma coisa Picasso” a qual ele retruca: “ah não vai fazer sucesso” “ainda bem que foram baratos”.

 

Como a própria Rose conta a história, ela se sente como se já tivesse vivido toda uma vida, ela não ver mais nenhuma novidade naquele ciclo repetitivo de festas, as mesmas pessoas, com as mesmas conversas fúteis, enquanto sua alma está gritando de angústia, Rose não vê saída, e é claro porque ela não vê nenhuma saída, simplesmente porque ela vive um conflito inconsciente. 

 

A cena em que aparece Rose correndo sobre o convés e se dirigindo à proa do navio, a qual pretende num ato de desespero pular do navio, representa um estado psíquico conturbado, talvez um sintoma daquilo que Jung chamava de neurose. Nesta hora aparece o Jack tentando ajudá-la a não cometer tal ato absurdo de pular do navio. Jack aqui representa não somente a parte inconsciente da personalidade de Rose como aquilo que Jung designou de Animus, aqui o Animus representa não as opiniões, mas a parte inconsciente de Rose, a alma inconsciente, mas Jack também representa o arquétipo do herói, não de qualquer herói, mas do herói-salvador, aquela imagem que geralmente é projetada na figura ou imagem de um salvador metafísico, Cristo, por exemplo.

 

No filme é possível ver claramente que Jack corresponde aquela parte da personalidade que é inconsciente em Rose, ele é o oposto dela, enquanto ela vive um dilema em sua vida com Cal, se sentindo aprisionada a um casamento de fachada, Jack possui aquela liberdade de espírito almejada por Rose, ele possui o destino dele em suas próprias mãos, em que pese esse destino às vezes possa ser algo mais baseado na sorte, como na cena em que aparece ele ganhando a passagem da viagem que o levaria de Inglaterra à América num jogo de cartas.

 

Jack possui aquela mesma chama que arde inconscientemente em Rose, isso é representado pelos desenhos que Jack mostra à Rose, desenhos que ele fez de pessoas reais, os quais ele captava a essência da alma das pessoas, muito bem representado no desenho da “madame Biju” uma senhora, segundo ele, se sentava todas as noites no mesmo bar em Paris, usando sempre as mesmas joias a espera de seu amor. Jack conseguia ver além das aparências, percebia coisas sutis, o que o fez também perceber o “conflito” que Rose estava vivendo.

 

Nessa mesma cena Rose comenta sobre os preparativos de seu casamento com Cal, sobre a quantidade de convites que já foram enviados, sobre o anel de noivado pesado que carrega em seu dedo, e que ela não sabe o que fazer. Jack pergunta a ela se ela ama o Cal e nesse momento Rose acha que não deveria ter esse tipo de conversa com Jack, ela tenta fugir do confronto com o seu estado inconsciente, com os verdadeiros motivos que a mantém aprisionada àquela vida de aparências a qual se sente tão angustiada. Rose age como geralmente agimos quando somos levados a ter um mergulho profundo em nós mesmos e descobrimos aquele lado obscuro que é chamado de sombra, evitamos o máximo possível confrontarmos com o inconsciente, a descida ao Hades, pois temos medo de encontrarmos os verdadeiros motivos que nos faz ter uma vida medíocre.

 

Naquela mesma cena em que Jack mostra os seus desenhos a Rose, ela comenta com ele porque ela não era igual a ele, que se lançava no horizonte que segue e faz a vida valer a pena, de como gostaria de fazer coisas diferentes, de cavalgar... ou seja, Rose estava expressando inconscientemente o que sua alma inconsciente gostaria de viver e não aqueles ciclos de festas com conversas fiadas as quais viviam sempre, Rose sentia falta da parte inconsciente de sua personalidade a qual é também vida, energia psíquica, libido. Jack então fala para ela que irá ensiná-la a cavalgar na América com as duas pernas uma de cada lado e não como uma senhorita de classe, que irá ensiná-la a mascar tabaco como homem a cuspir como homem.

 

Segue se a cena da festa a qual Jack foi convidado como uma espécie de gratificação por ter salvo a vida de Rose quando esta tentava pular do navio e claro que Cal não sabia dos verdadeiros motivos que fizeram Jack a ter salvo na noite anterior. Na noite anterior ao jantar aparece aquela senhora a chamada “nova rica” que acompanhava as senhoras junto com a mãe de Rose nas festas e conversas, essa senhora percebeu que Jack não teria o que vestir e estava prestes a entrar num “covil de cobras”, então compadecendo-se de Jack empresta um Smoking de seu filho para que Jack esteja apresentado conforme a alta sociedade, ela representa aquele aspecto favorável do inconsciente que ajuda o herói na sua jornada, dando-lhe ferramentas para que passe pelas provas.

 

Após o jantar luxuoso Jack convida Rose para uma “festa de verdade” na terceira Classe, a qual Rose aceita e deixa fluir aspectos desse mundo interior esquecido, ela realmente se diverte com a música cheia de vida e animação, novamente aqui esse evento externo representa o outro lado, o mundo interior esquecido, o qual é representado pela terceira classe que se localiza na parte de baixo do navio, é uma descida da parte consciente da personalidade de Rose para sua parte inferior, cheia de vitalidade, de libido, nessa noite Rose teve um contato mais próximo com o seu mundo inferior.

 

No dia seguinte, Rose aparece no café da manhã com Cal, e pergunta a ela porque ela não foi vê-lo na noite anterior, claro que Cal sabia o verdadeiro motivo dela não ter ido, uma vez que mandou seu capanga atrás de Rose e descobriu que ela estava nos deleites da terceira classe, ou seja, Rose estava em contato com o outro lado de sua personalidade que vive no mundo inferior ao da parte consciente. Rose responde a Cal que não foi pois estava muito cansada, o qual Cal retruca dizendo que ela estava cansada justamente porque estava se divertindo na  terceira classe, Rose lhe responde que ele (Cal) não deveria ter mandado seu homem de confiança atrás dela, que Cal não deveria tratá-la como um deus operários, que ela era sua noiva!, nesse momento Rose se coloca de novo em identificação apenas com a parte consciente de sua personalidade, ela sofre aqui uma oscilação, isso porque Rose ainda não integrou a parte inconsciente de sua personalidade.

 

 Nessa hora Cal derruba violentamente a mesa do café e diz claramente a Rose que ela era sua noiva e que ela deveria se comportar como sua noiva, sua mulher, aqui demonstra que a parte consciente de Rose exerce sobre ela um domínio que não a permite ter contato com a sua outra parte que é a alma inconsciente. Cal a todo tempo (como representante dessa parte consciente de Rose) está mostrando para Rose que ela deve ficar apenas no mundo exterior, das aparências, isso é corroborado pelos presentes que ele dá para ela como o colar do coração do oceano, mostrando com isso que esse mundo exterior, dos objetos físicos, é o único que vale a pena ser vivido, que ele pode proporcionar para ela tudo que ela desejar (menos o contato com alma interior) o que lembra o encontro com o espírito da contrafação no deserto, que Jesus encontrou.

 

A mãe de Rose também contribui para que Rose tenha apenas contato com esse mundo visível, de aparências, de objetos. Ao saber do ocorrido no café da manhã a mãe de Rose vai no quarto da filha implorar para que ela não coloque tudo a perder com o Cal, o noivado , o casamento etc, lembra a Rose que elas não tem como se sustentarem, que seu falecido marido deixou apenas dívidas e que elas possuíam apenas o nome de prestígio,  e perguntou a  Rose se ela gostaria de ver a mãe trabalhando como costureira, ou seja, a mãe de Rose é representa o apego à vida consciente, que não vê outras possibilidades de vida, pois nunca conheceram outra coisa, não conheceram o mundo interno que é tão cheio de possibilidades quanto o mundo externo e que se pode trazer esse mundo interior simbólico para o mundo concreto.

 

A mãe de Rose representa a consciência que se afastou demasiado das raízes inconscientes, já não sente a vida, já não percebe as coisas sutis da alma, sequer consegue perceber que a filha está sofrendo por estar prestes a se casar, a ficar presa apenas ao mundo consciente e perder aquela chama que ainda queima, a chama da alma inconsciente. Na cena em que todos são chamados para fora de suas cabines e para que coloquem os coletes salva vidas a mãe de Rose sequer percebe o que está acontecendo ao seu redor, diz a uma de suas camareiras que coloque o quarto para aquecer pois na volta pretende tomar um chá, enquanto Rose já percebe algo sutil ao seu redor, que provavelmente a um trágico final para a viagem, a mãe de Rose só consegue ver o velho mundo dos deleites, a identificação com os objetos.

 

Outra cena que chama bastante atenção é no momento em que de fato começam a colocar as pessoas nos botes salva vidas, a mãe de Rose fala algo como: “espero que (o bote) não fique muito cheio” ou seja, a mãe de Rose sequer percebe que há muitas vidas que também precisam ser salvas, representando aqui aquele velho egoísmo que a parte consciente da personalidade tende a desenvolver quando não conhece a parte inconsciente e coletiva de sua própria personalidade.

 

Retornando ao evento onde Cal exige que ela (Rose) se comporte com sua verdadeira mulher, noiva, Rose depois com o reforço da conversa com sua mãe no quarto, resolve deixar de lado sua experiência com a sua parte inferior, Jack vai procurá-la e diz a ela para ela não deixar a chama de apagar, Rose se vê novamente no conflito, na indecisão, enquanto sua parte consciente se aferra mais ainda no mundo coletivo, e também das aparências e sua parte inconsciente busca através do símbolos enviar novamente aquele chamado interior da alma, Jack como representante dessa parte inconsciente de Rose cumpre o papel de alertá-la de que não deixe escapar os vislumbres das possibilidades do mundo interior que teve.

 

A cena que Rose se vê novamente no ciclo repetitivo de conversas vazias que não alimentam a alma e sim o ego, é percebida quando após ela recusar ter novamente contato com Jack ela está numa mesa com as senhoras tomando chá e vê de longe uma menininha sendo moldada pela mãe a se comportar de forma educada com um lenço no colo ao tomar chá, Rose possui nesse momento uma percepção inconsciente e intuitiva de que algo está errado, e que ela deve dar outra chance a sua união com o seu inconsciente.

Ela procura e encontra Jack na proa do navio, e ali ocorre um símbolo da união das partes de sua personalidade. No entanto, como essa união com o inconsciente se dá de forma gradual, após o navio ter batido no iceberg, Rose e Jack estão de mãos dadas e Rose fala a Jack que precisa avisar o Cal e a mãe do ocorrido e decide ir até a cabine de Cal. A essa altura Cal já planejava incriminar Jack pelo roubo de colar, uma artimanha ou um pensamento intelectual que tende a servir aos propósitos da parte consciente da personalidade, reforçando como sempre esse estado em que a alma sempre se vê presa à dominante consciente.

 

Ocorre novamente a separação dos opostos, Jack é levado preso para uma sala pequena na terceira Classe, colocando em dúvida a experiência que Rose tivera com a sua parte inconsciente, o que lembra a separação de Eros e Psiquê. Rose é então convencida por Cal e sua mãe que deve entrar num bote salva vidas, o qual Rose por uma percepção intuitiva percebe que Cal e sua mãe só se importam com o mundo egoístico pessoal. 

 

Nesse momento Rose segue correndo para descobrir onde Jack estava preso, que aqui representa  que o símbolo do arquétipo do herói-salvador retornou ao inconsciente onde corre o risco de desaparecer nas águas do inconsciente se a parte consciente da personalidade não enfrentar as provas que o próprio inconsciente propõe para que a união dos opostos seja feita novamente. Rose então descobre onde Jack está preso e desce as escadas simbolizando a descida ao inconsciente, ela vai tentar resgatar a sua outra parte no inconsciente.

 

Novamente essa união é realizada, porém quando ambos já estão no convés a procura de um bote salva vidas, a separação dos opostos ocorre novamente, Rose é convencida por Cal e Jack a entrar no bote salva vidas, enquanto Cal promete a Rose que tem um acordo com um oficial do outro lado do navio e que Jack e ele serão salvos , ele a convence por alguns instantes que entre no bote, Rose obedece, no entanto, Rose decide pular do bote de volta ao navio. Jack corre ao seu encontro e ambos se unem novamente, mas Cal não suporta e atira nos dois, eles fogem.

 

O final do filme Jack salva a vida de Rose em um pedaço de madeira flutuante, pede que Rose fique ali e que no final não desista de seguir em frente, faz a prometer-lhe que sairá viva de lá e que viverá e morrerá numa cama confortável quando já estiver bem velhinha. Rose de fato consegue se salvar e já no navio onde se encontram os sobreviventes, Rose vê que Cal está no mesmo navio e que a procura, ela por sua vez , se esconde dele coberta por um manto.

 

O contraste que aparece no final do filme mostrando como Rose teve que passar e experimentar várias uniões e separações com Jack, mostra o simbolismo das várias “nigredos” que o indivíduo tem de passar para que a união se faça cada vez mais e se aproxime da síntese da coniunctionis. Na cena em que Rose aparece olhando para a estátua da liberdade é um outro símbolo de que ela conseguiu libertar sua a alma presa nas projeções do mundo material e luxuoso mas tão vazio como era sua vida no início  do filme. Ela também deixa claro nas últimas frases ditas a quem ela estava contando a história do Titanic, quando um deles falou que não encontraram registros do Jack, ela respondeu: “É realmente não era para ter mesmo nenhum registro do Jack, mas que hoje vocês sabem que existiu um homem chamado Jack Dawson e que ele me salvou de todas as maneiras que uma pessoa pode ser salva.” O que corrobora com o fato dele ser a representação do símbolo do arquétipo do herói-salvador, aquela parte da alma inconsciente que geralmente é projetada, e que esperamos sempre “que algo de fora” venha nos salvar de nosso estado inconsciente, quando na verdade essa parte precisa ser integrada, é ela que nos salva de uma vida unilateral identificada apenas com a parte consciente e que já está esgotada, já não produz o “sentido de existência” que a alma precisa para continuar vivendo.