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Unus Mundus

Unus mundus, literalmente um mundo, ou um só mundo, é um termo que se refere ao conceito de uma realidade subjacente unificada a partir da qual tudo emerge e para a qual tudo retorna.

 

Em seu estudo sobre a sincronicidade, Jung enfatiza que, como os domínios físico e psíquico coincidem dentro do evento sincronístico, deve haver em algum lugar, ou de algum modo, uma realidade unitária - uma realidade dos domínios físico e psíquico, para a qual ele usou a expressão latina unus mundus, o mundo uno, conceito que já existia na mente de alguns filósofos medievais.

 

Esse mundo, diz Jung, não pode ser visualizado por nós e transcende, por completo, a nossa apreensão consciente. Só podemos concluir ou pressupor a existência em algum lugar de tal realidade, uma realidade psicofísica, como poderíamos chamá-la, que se manifesta esporadicamente no evento sincronístico. (FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)

 

A ideia de um unus mundus é uma variação do conceito de inconsciente coletivo. A princípio, todos os arquétipos estão contaminados, e assim o "unus mundus" é uma multiplicidade unificada, uma separatividade das partes e ao mesmo tempo uma unicidade.

 

Concretamente, o unus mundus se manifesta, como assinalou Jung, nos fenômenos sincronísticos. Vivemos normalmente num mundo dualista de eventos “externos” e “internos” , ao passo que num evento sincronístico essa dualidade não existe; eventos externos comportam-se como se fossem uma parte de nossa psique, de tal modo que tudo está contido na mesma totalidade. (FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022)

 

No momento de um evento sincronístico, a psique comporta-se como se fosse matéria, enquanto a matéria comporta-se como se pertencesse a uma psique individual. Assim, há uma espécie de coniunctio (termo latino que significa "união" ou "conjunção") da matéria e da psique e, ao mesmo tempo, uma troca de atributos que sempre ocorre no hieros gamos (casamento sagrado - união simbólica frequentemente associado à fertilidade). Logo, é de fato verdadeiro que um evento sincronístico é um ato de criação e uma união de dois princípios normalmente não ligados. (FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)

 

Jung supunha que, no nível mais profundo do inconsciente coletivo, nos deparamos com algo da Natureza desconhecida. “A Natureza que contém tudo, incluindo, portanto, o que se desconhece, inclusive a matéria.” Quando  esse nível é ativado nas pessoas, os eventos de sincronicidade são observados com maior frequência. A coisa essencial e, por certo, mais impressionante quanto às ocorrências de sincronicidade, aquilo que realmente constitui a sua numinosidade, é o fato de, nelas, a dualidade entre alma e matéria parecer estar eliminada. Elas são, portanto, uma indicação empírica de uma unidade última de toda existência, que Jung, usando a terminologia da filosofia natural medieval, denominou “unus mundus”. 

 

Na filosofia medieval, esse conceito designa o modelo potencial preexistente da criação na mente de Deus, de acordo com o qual Deus mais tarde produziu a criação. Jung viu nessas especulações medievais uma antecipação do conceito de inconsciente coletivo. O modo como se organiza a multiplicidade do inconsciente coletivo numa unidade revela-se com especial clareza no simbolismo da mandala. A mandala simboliza, por meio do seu ponto central, a unidade última de todos os arquétipos, bem como a multiplicidade do mundo fenomenológico, sendo portanto o equivalente empírico do conceito metafísico do "unus mundus". 

 

Enquanto a mandala representa uma analogia psicológica com o unus mundus, os fenômenos de sincronicidade representam uma analogia parapsicológica que aponta empiricamente para uma unidade última do mundo. No fim, tudo o que acontece se dá num mesmo mundo e é parte dele.

 

Nem tudo o que existe está ao alcance do nosso conhecimento, razão pela qual não temos condições de fazer afirmações acerca da sua natureza total. A microfísica está descobrindo instintivamente seu caminho em direção ao lado desconhecido da matéria, da mesma maneira como a psicologia dos complexos está se dirigindo para o lado desconhecido da psique (....). Mas uma coisa sabemos com certeza: a realidade empírica tem fundamento transcendental. O terreno comum da microfísica e da psicologia profunda é tanto físico como psíquico e, portanto, nenhum, mas antes uma terceira coisa, uma natureza neutra que podemos, no máximo, perceber por meio de indícios, visto ser a sua essência de cunho transcendental.

 

Janela  para a eternidade

 

Dorn descreve a experiência do "unus mundus" como a abertura de uma “janela  para a eternidade” ou de um “buraco de ar” no mundo eterno. E, de fato, uma experiência do Self ajuda a pessoa a libertar-se da prisão asfixiante de uma imagem consciente que seja muito estreita, de modo a poder abrir-se ao transcendental e que, ao mesmo tempo, o transcendental possa tocá-la e deixar nela uma impressão. Podemos compará-la à experiência do sartori do zen-budismo ou do samadi de certos ensinamentos orientais,  bem como com o despertar para o Tao na China. Nossa vida humana finita só tem sentido quando vinculada com o pensamento infinito da “janela para a eternidade”. Jung escreve a esse respeito em suas memórias: (FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025).

 

Somente quando sabemos que a coisa que de fato importa é o infinito podemos evitar a fixação do nosso interesse em futilidade e em todo tipo de alvo que não tenha real importância (...). Se compreendermos e sentirmos que já nesta vida temos um vínculo com o infinito, os desejos e atitudes se transformarão. Em última análise, só contamos alguma coisa por causa do essencial que personificamos; e se não o personificamos, a vida é desperdiçada. Também no relacionamento com outras pessoas a questão essencial é se está sendo expresso um elemento de infinitude nessa relação. (JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.)

 

A fala de Jung acerca de sua vida na torre de Bollingen parece transparecer esse vínculo com o infinito. “Sinto por vezes que estou como que espalhado por sobre a paisagem e no interior das coisas, vivendo em cada árvore, no arrebentar das ondas, nas nuvens e nos animais que vão e vêm, na sucessão das estações (...). Eis (...) há espaço para o reino sem espaço do interior da psique.” 

 

Desde o começo, eu sentia que a torre era, de algum modo, um lugar de amadurecimento - um ventre ou figura maternal em que eu podia me tornar o que eu era, o que sou e o que serei. Dava-me a sensação de que eu renascia em pedra (...).

 

E em Bollingen, estou no meio da minha verdadeira vida, sou mais profundamente eu mesmo (...). Ali eu vivia a minha segunda personalidade e via a vida como um círculo, como algo que sempre vem a ser e sempre desaparece.  (JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.)

 

Essa experiência é também o derradeiro estágio do processo de individuação, o tornar-se uno com o inconsciente coletivo, mas não de uma maneira patológica, como em certas psicoses em que o processo de individuação deu errado e tudo tomou um rumo igualmente errado. Quando isso ocorre positivamente, em vez de uma separação, produz uma união com o inconsciente coletivo, e significa uma expansão da consciência, com uma diminuição da intensidade do complexo do ego. 

 

Quando isso acontece, o ego retira-se em favor do inconsciente coletivo. Atingir esse ponto em que a realidade externa e a realidade interna (a terra e o céu) se tornam uma só é a meta da individuação. Por meio dela, também se atinge um pouco daquilo a que Jung chama de “conhecimento absoluto” no inconsciente.

 

Antes que se esteja integrado e individuado, os próprios complexos tendem a se impor. Mas se se trabalhou realmente no sentido de resolver os próprios problemas e se os complexos são integrados, então é possível estabelecer a ligação com o inconsciente coletivo e a sabedoria deste pode fluir através da pessoa. No ponto final do desenvolvimento ( o estágio final do processo de individuação), os mestres zen estão em tal estado de harmonia com o inconsciente coletivo que se comunicam entre si subliminarmente; eles por assim dizer, estão juntos no "unus mundus".


Este é um estágio de desenvolvimento que o homem atinge quando se aproxima da morte. Talvez a própria morte nada mais seja que esse terceiro estágio, a união com o unus mundus. (FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.)

 

Referências:

 

FRANZ, Marie-Louise Von. C.G.Jung Seu Mito em nossa época. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2025.

 

FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia e a imaginação ativa. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.

 

FRANZ, Marie-Louise Von. Adivinhação e Sincronicidade. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2022.

 

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos, Reflexões. 35.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021.